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Lidando com o luto e com pessoas enlutadas

  • Dra. Luana Pinheiro Victório
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Quando falamos em luto, a primeira imagem que costuma vir à mente é a perda de alguém que amamos. Mas o luto vai muito além da morte. Sempre que existe uma perda significativa, existe a possibilidade de vivenciar um processo de luto.


O fim de um relacionamento, uma amizade que se rompe, a perda de um animal de estimação, uma mudança importante de cidade, a aposentadoria, a perda de um emprego, um diagnóstico de doença ou até o encerramento de uma fase da vida podem despertar sentimentos semelhantes. Em comum, todas essas situações representam a necessidade de aprender a viver com uma realidade diferente daquela que existia até então.


Quem nunca ouviu alguém dizer: “Parece que isso não está acontecendo comigo”? Ou então: “Se eu tivesse agido de forma diferente, talvez tudo fosse diferente”? Essas frases mostram como o luto pode se manifestar de diversas maneiras.

Cada pessoa vive esse processo de uma forma. Não existe um tempo considerado normal nem uma maneira certa de sofrer. Algumas pessoas demonstram suas emoções com facilidade. Outras preferem viver esse momento de forma mais reservada. Nenhuma dessas formas significa, por si só, que o luto esteja sendo vivido de maneira inadequada.


É comum que, durante esse período, surjam tristeza, saudade, culpa, medo, irritação, dificuldade de concentração, alterações no sono e no apetite ou uma sensação de vazio. Esses sentimentos costumam oscilar ao longo do tempo. Há dias em que parecem suportáveis e outros em que voltam com intensidade, mesmo meses depois da perda.

Você provavelmente já ouviu falar das cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, tristeza, ou depressão, e aceitação. Hoje sabemos que elas não acontecem necessariamente nessa ordem e que nem todas as pessoas passam por todas elas.


Essas fases representam reações possíveis diante de uma perda.

Em alguns momentos, a pessoa pode sentir que aquilo ainda não aconteceu de verdade. Essa é a negação, uma forma de proteção do próprio organismo diante de uma realidade muito difícil.


Depois, pode surgir a raiva. Ela nem sempre é direcionada à pessoa que partiu ou à situação em si. Às vezes, aparece em forma de irritação, revolta, sensação de injustiça ou pode até ser direcionada a si mesma.


Também é comum surgir a barganha. São aqueles pensamentos de “e se…”: “E se eu tivesse insistido mais?”, “E se eu tivesse ido naquele dia?”, “E se eu tivesse percebido antes?”. Nossa mente tenta encontrar respostas para algo que, muitas vezes, não tem resposta.


Com o tempo, a tristeza costuma aparecer de forma mais evidente. É quando a ausência passa a ser sentida no dia a dia. A cadeira vazia, a mensagem que não chega mais, os planos que não acontecerão ou a rotina que mudou podem trazer uma saudade profunda. É importante lembrar que sentir tristeza nesse contexto é uma reação esperada e faz parte da elaboração da perda.


Por fim, pode chegar a aceitação. Talvez essa seja a fase mais mal compreendida. Aceitar não significa esquecer, deixar de amar ou não sentir mais saudade. Significa reconhecer que a vida mudou e, aos poucos, encontrar maneiras de seguir em frente sem apagar a importância do que foi vivido.


Também é importante lembrar que essas fases podem aparecer mais de uma vez. Não existe uma linha de chegada. Há pessoas que se sentem bem durante semanas e, ao ouvir uma música, sentir um cheiro ou lembrar-se de uma data especial, experimentam novamente emoções intensas. Isso não significa que o processo “voltou para trás”. Faz parte do luto.


Além de quem está vivendo a perda, muitas pessoas não sabem como acolher alguém enlutado. Na tentativa de ajudar, acabam usando frases como “você precisa ser forte”, “o tempo cura tudo”, “foi melhor assim” ou “você precisa seguir em frente”. Embora sejam ditas com boa intenção, nem sempre trazem conforto.


Na maioria das vezes, o que realmente ajuda é algo muito mais simples: estar presente. Ouvir sem interromper, permitir que a pessoa fale sobre quem ou o que perdeu, respeitar o silêncio quando ele existir e mostrar disponibilidade costumam ser atitudes muito mais acolhedoras do que tentar encontrar a frase perfeita.

A psicoterapia também pode fazer parte desse processo. Ela não existe para apagar a dor, mas para oferecer um espaço seguro no qual a pessoa possa compreender seus sentimentos, elaborar a perda e encontrar recursos para seguir a vida, respeitando o próprio tempo.


Em algumas situações, o sofrimento pode se tornar tão intenso que interfere no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e até nos cuidados básicos. Nesses casos, buscar acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico é uma forma de cuidado consigo mesmo, e não um sinal de fraqueza.

Para refletir: nem toda perda pode ser evitada, mas toda perda merece ser reconhecida.

O luto não é um problema que precisa ser resolvido rapidamente. É um processo de adaptação diante de uma ausência importante. Respeitar o próprio tempo, acolher os sentimentos e permitir-se receber ajuda quando necessário também fazem parte do cuidado com a saúde mental.

Afinal, seguir em frente não significa deixar o passado para trás, mas aprender a construir um novo caminho sem perder o significado daquilo que foi vivido.




Dra. Luana Pinheiro Victório
Cuidando da saúde mental e estilo de vida
CRM/PR 58013
Instagram: @‌luanapvictorio
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