top of page

Produtividade, erro e saúde mental

Matheus Alexandre Victório
há 1 dia
3 min de leitura


Perfeccionismo versus excelência; procrastinação; segurança psicológica no ambiente de trabalho; síndrome do impostor


Ser produtivo não significa fazer tudo, fazer rápido ou nunca errar. Uma produtividade saudável precisa considerar qualidade, responsabilidade e também a possibilidade de sustentar o trabalho ao longo do tempo. Buscar bons resultados pode ser positivo. A dificuldade aparece quando o desempenho passa a influenciar de forma excessiva a maneira como a pessoa avalia a si mesma. Nesse cenário, uma crítica pode parecer prova de incapacidade, pedir ajuda pode causar constrangimento e um pequeno erro pode ganhar um peso muito maior do que deveria.


É nesse ponto que excelência e perfeccionismo começam a se diferenciar. A excelência busca qualidade e admite aprendizado. O perfeccionismo, quando se torna rígido, acrescenta uma exigência difícil de sustentar: não basta fazer bem, é preciso não falhar.


Essa cobrança também pode favorecer a procrastinação. Adiar uma tarefa nem sempre é falta de interesse ou disciplina. Em alguns momentos, evitamos justamente aquilo que desperta medo de fracassar, insegurança ou dúvida sobre a própria capacidade. Quanto maior a expectativa de produzir algo perfeito, mais difícil pode ser dar o primeiro passo.



Excelência não exige ausência de erros


Nenhuma atividade humana complexa está completamente livre da possibilidade de falha. Isso não significa ignorar responsabilidades ou tratar todos os erros da mesma forma.

  • Há diferença entre:

  • uma falha durante um processo de aprendizagem;

  • um problema relacionado à falta de informação ou recursos;

  • situações de negligência ou descumprimento de orientações.


Compreender o que aconteceu permite responsabilizar de maneira mais adequada e, principalmente, aprender com o problema.


Nesse ponto, o ambiente de trabalho também faz diferença. Segurança psicológica diz respeito à possibilidade de fazer perguntas, reconhecer uma dificuldade, pedir ajuda ou comunicar um erro sem esperar automaticamente humilhação ou desqualificação.


Isso não elimina cobrança ou responsabilidade. Quando as pessoas conseguem comunicar problemas mais cedo, aumentam as chances de corrigi-los antes que se tornem maiores.

A saúde mental no trabalho, portanto, não depende apenas da capacidade individual de “lidar com a pressão”. Clareza de funções, carga de trabalho, recursos disponíveis, relações profissionais e formas de liderança também influenciam essa experiência. A redação vigente da NR-1 contempla expressamente fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais.



E a “síndrome do impostor”?


A expressão se tornou popular para descrever a sensação de não merecer as próprias conquistas ou de estar prestes a ser “descoberto” como alguém menos competente do que os outros imaginam. A literatura também utiliza o termo “fenômeno do impostor”, já que não se trata, por si só, de um diagnóstico psiquiátrico.


Uma pessoa pode receber elogios, alcançar bons resultados e, ainda assim, atribuir tudo à sorte ou ao esforço excessivo. Reconhecer as próprias conquistas não significa acreditar que sabemos tudo. Competência também envolve reconhecer limites, continuar aprendendo e buscar orientação quando necessário.



Uma reflexão para o dia a dia

  • Nem toda tarefa precisa ser perfeita.

  • Um erro não resume a competência de alguém.

  • Ter dúvidas também faz parte de aprender e trabalhar com situações complexas.


Talvez uma produtividade mais saudável esteja menos em “dar conta de tudo” e mais em fazer bem aquilo que importa, aprender com o que não saiu como esperado e reconhecer quando precisamos de apoio.


Excelência não exige perfeição.



Referências

BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 1 — Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

EDMONDSON, A. Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, 1999.

HILL, A. P.; CURRAN, T. Multidimensional Perfectionism and Burnout: A Meta-Analysis. Personality and Social Psychology Review, 2016.

BRAVATA, D. M. et al. Prevalence, Predictors, and Treatment of Impostor Syndrome: A Systematic Review. Journal of General Internal Medicine, 2020.



Matheus Alexandre Victório

Médico • CRM/PR 54.795CRM/SP 290.350

Comentários


bottom of page